sábado, 4 de janeiro de 2014

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face? 

Cecília Meireles
há momentos em que me sinto descartável...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014



A minha vida é um livro, cada página
está preenchida com amores e canções, poemas
onde a minha voz lavra a terra e cumprimenta os pássaros
e fala baixinho com os casulos da sombra e as borboletas
da luz. O meu amor está também no caminho que percorro,
na queixa deste planeta que tenho sob os pés,
o meu amor é imortal, é um archote que ilumina a carne,
que oferece ao meu sangue e aos meus ossos
uma alegria capaz de todos os afectos.
Acordo nos teus gestos, espreguiço-me
na cama das palavras onde nasce o amor, onde nasce
a ternura, onde nascem os filhos. Vou lavar
os olhos com o teu olhar, sorrir com o teu sorriso,
fazer perguntas a mim mesmo.
Tudo me pede que cante,
tudo me diz para cantar. E eu continuo
a interrogar-me, enquanto me dispo, enquanto ofereço
as minhas mãos ao teu corpo, enquanto
escrevo
o que o texto me pede.

Joaquim Pessoa

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014


vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim
Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014


Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Oração pela paz



Cristo, quero ser instrumento de Tua

Paz e do Teu infinito amor

Onde houver ódio e rancor, que eu

Leve a concórdia, que eu leve o amor

Onde há ofensa que dói

Que eu leve o perdão

Onde houver a discórdia,

Que eu leve a união e Tua paz

Onde encontrar um irmão 

a chorar de Tristeza 

sem ter voz e nem vez

Quero bem no seu coração 

semear alegria 

pra florir gratidão

Mestre, que eu saiba amar

Compreender, consolar 

e dar sem receber

Quero sempre mais perdoar 

trabalhar na conquista 

e vitória da paz

Ama.
Lavar os dentes ao lado de quem amas.
Apalpar-lhe descaradamente o rabo.
Comer chocolates até te fartares.
Passar a noite a dizer asneiras.
Beijar sempre de língua.
Passar o dia a dizer asneiras.
Mandar o chefe bugiar.
Passar a vida a dizer asneiras.
Deixar declarações de amor escondidas pela casa.
Fazer o teu pai feliz.
Preguiçar regularmente.
Fazer a tua mãe feliz.
Atirar o despertador à parede periodicamente.
Fazer quem tu puderes feliz.
Dormir quinze ou vinte horas seguidas.
Pôr a mão de fora do vidro do carro.
Pintar o cabelo de azul ou de amarelo.
Pôr a cabeça de fora do vidro do carro.
Cantar no banho para todo o prédio ouvir.
Lamber a tampa dos iogurtes.
Correr que nem um louco na praia.
Falhar que nem um burro só porque tentas.
Praticar sexo oral com frequência.
Tentar que nem um burro só porque queres.
Mudar a decoração de casa num dia só.
Dançar quando estás feliz.
Passar horas só a cuidar de ti.
Dançar quando estás triste.
Dizer bem de quem amas.
Enfiar o dedo no nariz às escondidas.
Dizer bem de quem não amas.
Dançar enquanto estás vivo.
Guardar segredos inconfessáveis.
Experimentar posições sexuais improváveis.
Contar segredos inconfessáveis.
Ter segredos inconfessáveis.
Ver quanto dá o teu carro.
Dizer o que não se pode dizer.
Cagar assiduamente nas convenções sociais.
Sonhar com o que não pode acontecer.
O orgasmo sempre que puderes.
Coçar e ser coçado nas costas.
O gemido sempre que souberes.
Passar muitas horas a contar anedotas.
Adormecer todo torto no sofá.
Passar muitas horas a ouvir anedotas.
Rir que nem um desalmado.
Fazer um penteado estrambólico só porque te apetece mudar.
Rir por tudo e por nada.
Chorar a torto e a direito.
Rebolar na areia quando estás todo molhado.
Chorar porque também é um direito.
Abraçar o teu gato ou o teu cão.
Mandar a austeridade tomar no cu.
Beijar incansavelmente.
Não te levares minimamente a sério.
Dispensar quem te chateia.
Tocar um instrumento qualquer.
Perdoar quem é humano.
Desistir do que não te serve.
Lutar pelo direito à parvoíce.
Escrever um livro.
Dar prioridade ao prazer.
Ler um livro.
Nunca desistir de quem amas.
Aprender desvairadamente.
Fazer cadeirinha com quem amas.
Ensinar desvairadamente.
Perder a respiração pelo menos uma vez por dia.
Nascer pelo menos mais uma vez do que as vezes em que morreres.
Viver desvairadamente.
Te.

Pedro Chagas Freitas