quarta-feira, 23 de abril de 2014


O que fazer quando sentimos que estamos a mais na vida de uma pessoa? Que em vez de acrescentarmos, ajudarmos e aliviarmos, estamos a chatear, a aborrecer, a incomodar?
O que fazer quando a ajuda, outrora, tão preciosa é agora dispensável? Quando vemos que nos tornamos em mais um problema em vez de ser a solução de...?
Nada mais a fazer a não ser nos afastarmos... 

segunda-feira, 21 de abril de 2014


"Se eu posso te dar um conselho, eis aqui: Não mendigue atenção de quem quer que seja. Não se esforce para compartilhar minutos com quem está mais interessado em coisas que não te incluem. Não prolongue a conversa apenas para ter o outro por perto, quando você perceber que precisa se esforçar bastante para que o monólogo vire um diálogo. Esqueça. Prefira a sua solidão genuína à pseudo presença de qualquer pessoa. Ainda digo mais: Perceba que existem pessoas que curtem dividir a atenção contigo sem que você precise desprender esforço algum. Aproveite o que te dão de livre e espontânea vontade. Dispense o que te dão por força do hábito ou por conveniência. Esqueça o que não querem te dar. Cada um dá o que pode." 
Mário Calfat Neto

Uma coisa é certa:
Não vou morrer de amores por quem nem vive por mim.
Não vou correr atrás de quem não tá nem ai.
Nem vou trabalhar para quem não valoriza o que eu faço.
Não quero saber de "amigos" que só querem a minha doação,
nem espero muito de conhecidos que falam demais, e fazem de menos.
Nada disso.
Eu quero um amor comprometido.
Amigos conhecidos.
Conhecidos que se tornem amigos.
E se é para trabalhar, que seja em harmonia,
desempenho e salário em dia.


Ora, se a vida nem é tão longa, porque ter só a metade?
Porque me contentar com as sobras se eu posso ter por inteiro.
Valorizo-me sim!
E quem gostar, que goste assim.
Fica mais fácil seguir comigo até o fim.


Não aceito mais nada que não seja muito bom.
Pedaço de bolo sem açúcar, chocolate barato e ruim,
comida sem gosto, amor sem "calor" to fora!
Quero sentir a delícia de experimentar o melhor.
Só assim, vou deitar e me sentir bem.
Ouço no ar essa certeza que me diz,
eu nasci mesmo é para ser feliz!


Paulo Roberto Gaefke

Não vale a pena taparmos o sol com a peneira... as coisas nunca mais serão iguais ao que eram... já não o são...

domingo, 20 de abril de 2014


Há quanto tempo que não me olham nos olhos e me dão um abraço?

PODIA




Podia deixar o galho frágil 
onde pousa a minha vida,
abandonar o rotineiro rebuliço
das aves que abalam.
Que sou eu mais que um pássaro só
que uma folha que no outono desiste
e se desfaz?

Desejo desejar soltar
esta existência cúmplice,
ser gaivota errante no amanhecer
de uma tempestade,
grito surdo de uma onda que se despedaça
para ser praia e maré.

Porque metade de mim permanece nas águas que choro,
outra metade partiu na certeza de um sol.

Sou azul como as gaivotas ao final da tarde,
branca como o leite que não bebi da ternura
mel como o sumo dos favos que abelhas interromperam.

Por que(m) espero?

Lília Tavares

sábado, 19 de abril de 2014

Calvário



O Cristo que dorme, na gaveta do altar,

de espinhos vermelhos na cabeça e

feridas roxas nas mãos, tem os olhos

fechados. Desceu-lhe as pálpebras

a mão de Madalena, a loura prostituta

que ele roubou aos homens; limpou-lhe

o sangue o lenço de Verónica, a bela

compadecida que guardou o linho onde

o seu rosto permanece; cruzou-lhe as

mãos a Mãe, ouvindo na ira dos ventos

a voz divina. Que durma em paz, esse

Cristo roubado à cruz, na gaveta do

Altar aonde não chegam já as vozes do

homem. Adormecido, que nem um grito

de dor o desperte; nem um gemido

suplicante o distraia do seu sono; nem

a fúria das gerações lhe reabra as

feridas. Um a um, têm caído os espinhos;

pouco a pouco, o sangue confunde-se

com a cor da pele; e no seu rosto uma

antiga palidez recupera a vida. Até

que alguém reabra a gaveta, na véspera

de Páscoa, e o traga de volta a este

mundo: cravando mais fundo ainda

nas mãos e no pés, os pregos, no peito,

o bico da lança, e na cabeça, os espinhos.


Nuno Júdice


"Não há tristeza que não passe. Pôr do sol que não termine. Dias nublados que não sejam clareados depois. 
Chuva que não cesse. Dor que não acabe. 
Não há felicidade que dure eternamente. Segredos que não se revelem. Sorriso que não se transforme. Café que não esfrie. Fumaça que não se desfaça. Aromas que não se espalhem. 
Não há nesse mundo lembrança dolorosa que não seja curada. Palavras que não sejam diluídas no tempo. Ninguém se despede deixando uma vaga eternamente inabitável.
Nem todo silêncio é eterno. O que foi dito, um dia não mais será. Tudo se desfaz, recomeça, se transforma. Tudo se traga, bebe, engole, vomita. Se indaga e passa ou serenamente ou naturalmente ou exasperadamente pela vida. Ninguém e nada é prisioneiro da materialidade infinita. E ninguém vive encarcerado sem um dia, uma tarde, uma horinha, escapar pela vida. E nem que seja por descuido, a gente se desequilibra e depois se harmoniza."

Ita Portugal

O Poço



Cais, às vezes, afundas

em teu fosso de silêncio,

em teu abismo de orgulhosa cólera,

e mal consegues

voltar, trazendo restos

do que achaste

pelas profunduras da tua existência.


Meu amor, o que encontras

em teu poço fechado?

Algas, pântanos, rochas?

O que vês, de olhos cegos,

rancorosa e ferida?




Não acharás, amor,

no poço em que cais

o que na altura guardo para ti:

um ramo de jasmins todo orvalhado,

um beijo mais profundo que esse abismo.


Não me temas, não caias

de novo em teu rancor.

Sacode a minha palavra que te veio ferir

e deixa que ela voe pela janela aberta.

Ela voltará a ferir-me

sem que tu a dirijas,

porque foi carregada com um instante duro

e esse instante será desarmado em meu peito.




Radiosa me sorri

se minha boca fere.

Não sou um pastor doce

como em contos de fadas,

mas um lenhador que comparte contigo

terras, vento e espinhos das montanhas.


Dá-me amor, me sorri

e me ajuda a ser bom.

Não te firas em mim, seria inútil,

não me firas a mim porque te feres.


Pablo Neruda

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Há quanto tempo não me dás um abraço?
Há quanto tempo não me roubas um abraço?
Há quanto tempo não chegas sorrateiramente, me envolves nos teus braços, aconchegando a tua cabeça no meu ombro e ficamos assim?
Há quanto tempo nos perdemos?

"Quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a bateria, nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio de uma multidão. Quando se gosta de alguém não respondemos a uma mensagem só no final do dia, não temos acidentes de carro, nem os nossos pais se sentiram mal a ponto de impossibilitar o nosso encontro. Quando se gosta de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campainha da porta, lemos sempre a mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso. Quando se gosta de alguém - e estou a escrever para os que gostam - vamos para o local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para que abram a porta... mas nada nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante que nós."

Fernando Alvim

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Aprender de cor quem amamos


Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida. 
Devemos tentar aprender de cor quem amamos. Tentar fixar. Armazená-las para o dia em que nos fizerem falta. São pobres as maneiras que temos para o fazer, é tão fraca a memória, que todo o esforço é pouco. Guardá-las é tão difícil. Eu tenho um pequeno truque. Quando estou com quem amo, quando tenho a sorte de estar à frente de quem adivinho a saudade de nunca mais a ver, faço de conta que ela morreu, mas voltou mais um único dia, para me dar uma última oportunidade de a rever, olhar de cima a baixo, fazer as perguntas que faltou fazer, reparar em tudo o que não vi; uma última oportunidade de a resguardar e de a reter. Funciona. 

Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, 1 de abril de 2014



“Estou cansado, é claro, 
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
De que estou cansado, não sei: 
De nada me serviria sabê-lo, 
Pois o cansaço fica na mesma. 
A ferida dói como dói 
E não em função da causa que a produziu. 
Sim, estou cansado, 
E um pouco sorridente 
De o cansaço ser só isto — 
Uma vontade de sono no corpo, 
Um desejo de não pensar na alma, 
E por cima de tudo uma transparência lúcida 
Do entendimento retrospectivo... 
E a luxúria única de não ter já esperanças? 
Sou inteligente; eis tudo. 
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa…”

Álvaro de Campos

DOS PÁSSAROS E DOS HOMENS


De pássaros não sei nada.
Também Sócrates diria que dos pássaros nada soube.
Porque um poeta é um filósofo. E um filósofo
é sempre um poeta. 
E um poeta não deve saber dos pássaros
mas dos homens.

Eu confesso: de pássaros nada sei.
Sei dos homens. Mas pouco.
Por isso os estudo. Falo deles. Amo-os ou odeio-os.
Aliás, entre os homens raramente há sentimentos intermédios
como a indiferença, por exemplo.
O amor e o ódio são sentimentos que caracterizam os homens.
Não consta que os pássaros os conheçam.

Os homens são muito importantes para um poeta.
Tão importantes como as palavras.
Direi mesmo mais importantes.
Porque não poderão existir palavras e poetas sem homens
mas os homens já existiam sem palavras e sem poetas.
E mesmo as palavras e a poesia
sem homens
não serviriam para nada. 

Portanto temos
primeiro o homem
depois a palavra
e por fim o poeta.

Na poesia é, pois, fundamental, o homem.

Sendo assim, é natural que eu fale dos homens
e me recuse a falar dos pássaros
porque, também, para falar de um assunto
é preciso estudá-lo
conhecê-lo
e, como eu já disse, de pássaros não sei nada
prefiro falar dos homens embora deles não saiba tudo
mas vou procurando aprender mais alguma coisa 
analisando-os
tentando conhecê-los melhor
em vez de analisar e tentar conhecer os pássaros
porque me parece não poder haver uma relação por aí alem
entre o pássaro e o homem
nem os pássaros poderão resolver os problemas dos homens
(habitação, ensino, desemprego, etc.)
nem um homem só que seja pode ser explorado
por um ou mais pássaros
nem os pássaros fizeram explodir nunca
uma bomba atómica ou
se juntaram em bandos para discutir
se hão-de construir centrais nucleares para matar
alguns homens
em benefício de qualquer pássaro
ou ainda para conferenciar sobre a bomba de neutrões
que pode ao mesmo tempo matar todos os pássaros
e todos os homens.

Por todas estas razões proponho que
a poesia fale do homem para o homem

porque:

a) falando dos pássaros a poesia fala só dos pássaros;

b) falando dos homens a poesia fala de tudo 
(até dos pássaros);

c) os pássaros nunca poderão entender a poesia nem
os poetas nem os outros homens;

d) a poesia falando dos homens fará com que os homens
possam entendê-la e entender não só os poetas como
também os pássaros e, sobretudo, o que é fundamental,
entenderem-se entre si o mais depressa possível.


Joaquim Pessoa


Amei-te algumas vezes
como se amam as flores e por ti
fiz as mais pequenas coisas com amor.
Bebi o sol que roubei à tua sombra
quando foste o poço dos desejos,
pequena flor da amendoeira que
por momentos enlouquece
o coração da abelha.
Algumas vezes beijei nas tuas mãos
as faces do meu rosto
depois de nele soltares o potro
das carícias. E despi das tuas ancas
o tecido com que faço os meus poemas
para deixar nu o corpo da paixão,
sedento, doce, inflamado,
nascente rápida da memória
do fogo
quando no escuro incendeia
a noite, até amanhecer.

Joaquim Pessoa

segunda-feira, 31 de março de 2014

É BOM SABER


A noite era amarela e húmida. 
Chovia quando me deste a mão e o pequeno cão molhado olhou para nós como se de há muito nos conhecesse. Tinha acabado de ler João Tordo, e trazia na memória algumas das suas palavras. Avançámos pela noite como se ela fosse um túnel. Apesar da morrinha, fazia calor. Tiraste os sapatos, e sorriste sem dizer nada, mas foi como se tivesses dito alguma coisa. 
O amor sabe ler, eu sinto-o, eu sei-o, eu semeio palavras na sua boca. Sou por vezes a sua voz e o seu poema. 
Procurámos abrigo da chuva no toldo de uma sapataria. Gostaria de ter tirado uma fotografia de longe aos teus pés descalços frente a uma montra exibindo sapatos italianos de requintadíssimo fabrico. Mas guardei essa imagem na memória.
O filme da vida, da nossa vida, das nossas vidas, de quem quer que seja, também é por vezes realizado com imagens que não existem, que nunca existiram, ou apenas existiram porque as captou a nossa imaginação. Mas que constroem o real. Porque o real, mesmo existindo apenas fora de nós, tem de ser construído em nós. E então, justamente, seremos. Mesmo quando não somos nem sabemos, e nem sabemos que não sabemos.
E é bom saber disso.

Joaquim Pessoa

GOSTO TANTO...


Gosto tanto quando tu dizes que me amas

Herda o dia dos sonhos poder profundo 
E a alma inquieta que vagueava pelas tristes horas de antes de ti
Repousa agora na paz de um persistente pensamento que só sabe dizer o teu nome

Às vezes
Desperto na noite por força da saudade
E vou de ti alimentar-me pelas palavras
Tantas
Todas elas a falarem de amor

Gosto tanto quando me descubro em teu pensamento

E sabes?
Eu acho que já não consigo partir de aqui

Gosto tanto quando tu dizes que me amas

Se eu vivo afinal todos os dias...
Amando-te

Sem que nem por um só segundo...
Eu queira deixar de pensar em ti

Francisco Caeiro

domingo, 30 de março de 2014



Deito fora as imagens. 
Sem ti, para que me servem 
as imagens? 

Preciso habituar-me 
a substituir-te 
pelo vento, 
que está em qualquer parte 
e cuja direcção 
é igualmente passageira 
e verídica. 

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos 
numa casa deserta, 
ao trémulo vigor de todos os teus gestos 
invisíveis, 
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve 
a não ser eu. 

Serei feliz sem as imagens. 
As imagens não dão 
felicidade a ninguém. 

Era mais difícil perder-te, 
e, no entanto, perdi-te. 

Era mais difícil inventar-te, 
e eu te inventei. 

Posso passar sem as imagens 
assim como posso 
passar sem ti. 

E hei-de ser feliz ainda que 
isso não seja ser feliz. 

Raúl de Carvalho

quarta-feira, 26 de março de 2014


(...)
Se penso que te deixo
já te quero

Se penso que recuso
já te anseio

Se penso que te odeio
já te espero

e torno a oferecer-te
o que receio

Se penso que me calo
já te grito

Se penso que me escondo
já me ofereço

Se penso que não sinto
é porque minto

Se pensas que me olhas
já estremeço.

Maria Teresa Horta

Há Noites



Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.


Natália Correia

sábado, 22 de março de 2014



Há sem dúvida quem ame o infinito, 

Há sem dúvida quem deseje o impossível, 

Há sem dúvida quem não queira nada — 

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 

Porque eu amo infinitamente o finito, 

Porque eu desejo impossivelmente o possível, 

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 

Ou até se não puder ser... 


Álvaro de Campos


o tempo não tem todo o mesmo peso. há um tempo que abre feridas e outro que as cicatriza. a impaciência é uma energia inútil e os heróis são personagens de outro palco. já quis acarear o tempo. agora só quero ir ao lado dele. 

nutro-me de utopias. desabo debaixo de grafias líquidas. concedo-me o destino das algas. e devolvo-me às marés. de peito aberto. para ser só coração. vibrante e voraz. vocação de vaga que explode o beijo na areia. 

mas há-de vir o inverno. o frio na pele. o aperto no coração. a gestação dos diálogos. quentes e doces. aveludada teia que retorna ao pensamento quando os dias quietos se retocam de nostalgia. sei então que em algum momento e lugar voaremos em movimento de asas sincronizado. teremos então a idade do ouro. 

Maria José Quintela

quinta-feira, 20 de março de 2014

Génese



Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo 
que o sol não esteja à vista (isto é, céu de chuva) 
o poema é o que explica tudo, o que dá luz 
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura- a luz incomoda, 
quando excessiva. Depois, o poema sobe 
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das 
árvores, canta com os pássaros, e corre com os ribeiros 
que vêm não se sabe de onde e vão para onde 
não se sabe. O poema conta como tudo é feito: 
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento, 
como esta manhã, e acaba também por acaso, 
com o sol a querer romper. 

Nuno Júdice

Sinto-te a escorrer por entre os dedos...

domingo, 16 de março de 2014

É preciso não esquecer nada



É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de actos,
a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos connosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

segunda-feira, 10 de março de 2014

AUSÊNCIA


"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais - um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refracção de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói."


Nuno Júdice

sábado, 8 de março de 2014

Vou-me embora de mim.



Atreve-te a julgar.
Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza.
Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções,
não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer.
Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis
mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Procura encontrar-te antes que
te agarre a voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão.
Uma paixão irrequieta que não te dê descanso
e te faça doer a respiração.
Aspira o ar, bebe-o com força, é teu,
nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo.
Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência
com que crescem as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos,
e cada amigo
como um astro que desponta
no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria.
A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados
e os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou.
Canta!
Se sentires medo, canta.
Mas se em ti não couber a alegria, não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta.
Constrói o teu amor, vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem,
o que mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual,
nada será igual alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança.
E canta quando a esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e
porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso.
Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.

Joaquim Pessoa

Há gente que sem o saber
torna os nossos dias mais felizes
gente que colora de matizes
os olhos quando o céu chora

Há gente que gravita
e sem nos tocar
deixa-nos a pensar
quantas coisas boas
temos para nos alegrar

Há gente que faz eco dentro da gente
e transforma de repente
um dia sombrio num dia de verão.

São Reis

A sensação que tens 
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.

Albano Martins
"Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem achei. 
De tanto ser, só tenho alma. 
Quem tem alma não tem calma. 
Quem vê é só o que vê, 
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo, 
Torno-me eles e não eu. 
Cada meu sonho ou desejo 
É do que nasce e não meu. 
Sou minha própria paisagem; 
Assisto à minha passagem, 
Diverso, móbil e só, 
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo 
Como páginas, meu ser. 
O que segue não prevendo, 
O que passou a esquecer. 
Noto à margem do que li 
O que julguei que senti. 
Releio e digo: "Fui eu?" 
Deus sabe, porque o escreveu."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014



A minha voz move-se ainda em biliões de bocas, o meu peito
carrega angústias, alegrias, conhecimento e desconhecimentos,
e razões que apesar de tão fundas ainda continuam a doer.
Em mim, quantos nomes, quantos encontros de amor? 
Em mim, quantas árvores, quantas estrelas, quantas aldeias? 

E não sei que idade tenho. Talvez sessenta anos. Talvez 
o tempo do amor. Ou o tempo que falta para salvar o amor.


Joaquim Pessoa

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014


Há coisas bem piores
do que ser sozinho.
mas às vezes levamos décadas
para percebê-lo.
E ainda mais vezes
é demasiado tarde.
E não há nada pior
do que
demasiado tarde.

Charles Bukowsky

domingo, 16 de fevereiro de 2014


Estendi a mão por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora
uma coisa inocente

Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
o longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme

Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime.

José Tolentino Mendonça


sábado, 15 de fevereiro de 2014


Diz-me por favor onde não estás
em qual lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar
e onde relembrar sem que me doa.

Diz-me por favor onde posso caminhar
sem encontrar as tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja
e onde descansar com a minha tristeza.

Diz-me por favor qual é o céu
que não tem o calor do teu olhar
e qual é o sol que tem luz apenas
e não a sensação de que me chamas.

Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.

Jorge Luis Borges


Vamos falar de gente, de pessoas. Existe, por acaso, algo mais espetacular do que gente? Pessoas são um presente!
Algumas vem em embrulho bonito, como os presentes de Natal, Páscoa ou festa de aniversário. Outros, vêm em embalagem comum, há as que ficam machucadas no correio... e de vez em quando, chega uma registrada. São os presentes valiosos. 
Algumas pessoas trazem invólucros fáceis de abrir, enquanto outras é dificílimo, quase impossível tirar a embalagem. É fita durex que não acaba... Mas a embalagem não é presente, porém tantas pessoas se enganam, confundindo a embalagem com o presente. Também você amigo, eu também, somos um presente de Deus para os outros, Você para mim e Eu para Você. 
Triste se fossemos apenas um ‘presente embalagem’: muito bem empacotados e quase sem nada lá dentro! Quando existe um verdadeiro encontro com alguém, no diálogo, na abertura, na fraternidade, deixamos de ser mera embalagem e passamos à categoria dor presentes reais. 
Nos verdadeiros encontros de fraternidade, acontece alguma coisa muito essencial: mutuamente vamos desembrulhando, desempacotando, revelando, no bom sentido, é claro. 
Você já experimentou essa imensa alegria da vida? A alegria profunda que nasce do recôndito de uma alma, quando duas pessoas se encontram, se comunicam, virando presente uma para a outra?
Conteúdo interno é o segredo para quem deseja tornar-se presente aos amigos e não apenas embalagem... a minha embalagem pode não ser tão bonita, mas o conteúdo pode ser um verdadeiro presente...


Mon Liu

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014


Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014



A vida vai depressa e devagar.
Mas a todo momento
penso que posso acabar.

Porque o bem da vida seria ter
mesmo no sofrimento
gosto de prazer.

Já não tenho vontade de falar
senão com árvores, vento,
estrelas, e águas do mar.

E isso pela certeza de saber
que nem ouvem meu lamento
nem me podem responder.


Cecília Meireles

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014


Não tenho pressa. Pressa de quê? 
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos. 
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas, 
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. 
Não; não sei ter pressa. 
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega - 
Nem um centímetro mais longe. 
Toco só onde toco, não aonde penso. 
Só me posso sentar aonde estou. 
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras, 
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa, 
E vivemos vadios da nossa realidade. 
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui. 

Alberto Caeiro

Cais



Para quem quer 
Se soltar 
Invento o cais
Invento mais 
Que a solidão me dá
Invento lua nova 
A clarear
Invento o amor 
E sei a dor 
De encontrar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim 
O sonhador
Para quem quer 
Me seguir 
Eu quero mais
Tenho o caminho 
Do que sempre quis
E um saveiro pronto 
Pra partir
Invento o cais
E sei a vez 
De me lançar

Ronaldo Bastos

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014


(…)

As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas macias que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
dos lemes das palavras.

(…)

Herberto Helder

sábado, 8 de fevereiro de 2014



Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

SE NÃO HOUVER AMANHÃ...



Sabe, eu que costumava deixar
muitas coisas para amanhã, resolvi
lhe dizer, hoje, o quanto você é
importante para mim, porque quando
acordei pela manhã uma pergunta 
ressoava na acústica de minha alma:
(e se não houver amanhã?)

Então hoje eu quero me deter um pouco
mais ao seu lado, ouvir suas idéias com
mais atenção, observar seus gestos mais 
singelos, decorar o tom da sua voz, seu 
jeito de andar, de comer, de abraçar.

Porque... se não houver amanhã...eu quero
saber qual é a sua comida preferida, a 
música que você mais gosta, a sua cor predileta...

Hoje eu vou observar seu olhar, descobrir
seus desejos, seus anseios, seus sonhos mais
secretos e tentar realizá-los.
Porque se não houver amanhã... Eu quero ter
gravado em minha retina o seu sorriso, o seu
jeito de ser, suas manias...

Hoje eu quero fazer uma prece
ao seu lado, descobrir com você
essa magia que lhe traz tanta 
serenidade, quero subir aos céus
com você, pelos fios invisíveis da oração...

Hoje eu vou me sentar
com você na relva macia,
ouvir a melodia dos pássaros
e sentir a brisa acariciando
meu rosto, colado ao seu,

Hoje eu vou lhe pedir um 
favor, agradecer, me 
desculpar, pedir perdão,
se for necessário.
Sabe, eu sempre deixei 
todas essas coisas para
amanhã mas o amanhã é
apenas uma promessa...
o hoje é presente.

Assim se não houver amanhã eu 
quero descobrir hoje qual é a flor
que mais gosta e lhe ofertar um
belo ramalhete.
Quero conhecer seus anseios, lhe
aconchegar em meus braços e
lhe transmitir confiança...

Hoje quando você se afastar
de mim, vou segurar suas mãos
e pedir para que fique mais um
pouco ao meu lado.

Sabe eu sempre costumo deixar as
palavras gentis para dizer amanhã,
carinho para fazer amanhã, muita
atenção para prestar amanhã, mas o
amanhã talvez não nos encontre juntos.
Eu sei que muitas pessoas sofrem quando
um ser amado embarca no trem da vida 
e parte sem nenhuma chance de dizer 
o que sentem, e sei também que isso é
motivo de muito remorso e sofrimento.

Por isso eu não quero deixar
nada para amanhã, pois se, o
amanhã chegar e não nos 
encontrar juntos, você saberá
tudo o que sinto por você e
saberei também o que você 
sente por mim
Nada ficará pendente...

Quero registrar na minha alma,
cada gesto seu.
Quero gravar em meu ser, para
sempre, o seu sorriso, pois se a
vida nos levar por caminhos
diferentes, eu terei você comigo,
mesmo estando temporariamente
separados.

Sabe, eu não sei se o amanhã chegará
para nós, mas sei que hoje, eu posso 
dizer a você o quanto é importante
para mim.
Seja você minha namorada, minha 
amante, minha mulher, uma amiga
talvez, você vai saber hoje, o quanto
é importante para mim.

Porque ... Se não houver amanhã...
Amanhã o sol será o mesmo mensageiro da luz, 
mas as circunstâncias, pessoas e coisas, poderão
ser ou estar diferentes.
Hoje significa o meu momento de agir, semear,
investir minhas possibilidades afetivas em favor
daqueles que convivem comigo.

Hoje é o melhor período de tempo
na direção do tempo sem fim...


Prof. Paulo de Lacerda

terça-feira, 21 de janeiro de 2014


Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.

Miguel Torga

Solidão


Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

JukeBox


Amo-te...
com qualidade e defeitos...
com sonhos e frustrações...
com fantasmas e decepções...
com medos e força...
Amo-te...
como és...





Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.




domingo, 19 de janeiro de 2014



Não esperes. 
Nada dura para sempre.

Se tivesses um amigo que nunca mais fosses ver... o que dirias? 
Se pudesses fazer uma última coisa por alguém que amas... o que seria? 
Diz. Faz. Não esperes. Nada dura para sempre.
Faz um pedido e guarda no teu coração. Qualquer coisa que quiseres. Tudo o que quiseres. Já o tens? Óptimo. Agora acredita que se pode tornar realidade. Nunca sabes de onde virá o próximo milagre. A próxima memória. O próximo sorriso. O próximo desejo que se tornará realidade. Mas se acreditares que está logo ali adiante, ao virar da esquina, e abrires o teu coração e a tua mente para essa possibilidade, para essa certeza, pode ser que consigas o que tanto querias. 
O mundo está cheio de magia. É só acreditar nela. 

Então pede um desejo. Agora... acredita nele. Com todo o teu coração. 
Óptimo. Já está!?


João Monge Ferreira