terça-feira, 29 de outubro de 2013

Viver de pequenos nadas...


Aquela sensação de acordar a meio da noite e simplesmente ouvir. Ouvir o silêncio, através do qual rompe o barulho da chuva que cai constante e calma. Olhar para o relógio e perceber que ainda nos faltam duas horas e trinta minutos de sono bom pela frente. Sentir o calor que provém do vale de mantas em que nos encontramos e que sabemos certo. No meio de todos estes pequenos nadas que teimamos em ignorar, não há cinzento na alma que consiga sair vitorioso. 
E se nada mais valer a pena agradecer hoje, já tenho este momento madrugador como detentor de honra do melhor prémio que podemos dar a nós próprios: viver! 
João Monge Ferreira

segunda-feira, 28 de outubro de 2013


Um dia virá
em que a minha porta 
permanecerá fechada 
em que não atenderei o telefone 
em que não perguntarei 
se querem comer alguma coisa 
em que não recomendarei 
que levem os casacos 
porque a noite se adivinha fresca. 

Só nos meus versos poderão encontrar 
a minha promessa de amor eterno. 

Não chorem; eu não morri 
apenas me embriaguei 
de luz e de silêncio. 

Rosa Lobato de Faria


Gosto de ti. 
Gosto de gostar de ti. 
Gosto mesmo de gostar de ti.
Gosto de te ter por perto. 
Gosto de te sentir aqui. 
A tua presença conforta-me 
e coloca-me um daqueles sorrisos parvos no rosto. 
E um brilho nos olhos. 
E uma paz infinda. 
Gosto de gostar de ti. Tanto e sempre.

In Gosto de ti, e então?

domingo, 27 de outubro de 2013

Onde está o que é teu...


É o fim. Fim das grandes esperanças, das grandes ilusões. Há que acabar. Deixar acabar o que não anda, o que não desenvolve. Tudo o que não se desenvolve naturalmente é porque não é para ti. E se não é para ti, deixa ir. Larga. Solta.
Há coisas que são tuas e querem manifestar-se. Estão a aproximar-se a passo rápido e querem-se expor. Querem mostrar-se, querem que as aceites na vida como tuas, sem equívocos, sem hesitações. 

Mas de lá de cima encontram-te cheio de certezas, cheio de resistência, cheio de medo da mudança, do novo. E tu não soltas o velho porque não vês nada de novo a aproximar-se. E o novo não se aproxima porque não soltas o velho. Vês a ironia?
Se continuares como estás, irás perpetuar a vida mesquinha e pequenina que tens vivido. Se soltares as amarras do velho e conhecido irás soltar-te no ar e serás levado para direcções imprevistas. Onde mora o que é para ti. Onde está o que é teu. 

E o que é teu é muito mais do que a tua pequena mente pode imaginar. 

João Monge Ferreira

Qual a diferença que faz eu ser forte e tudo aguentar? 
Qual a diferença que faz eu continuar convicta daquilo que sinto?
Qual a diferença que faz eu ser a pessoa que sou?

Qual a diferença que te faz aquilo que eu faça?
Qual a diferença que te faz os actos que eu pratico?
Qual a diferença que te faz eu aqui permanecer?

Que diferença faz?
Que indiferença te faz?

In Gosto de ti, e então?

"Hoje não cale...
Sinta o amor que leva no coração 
e... fale...
Deixe em palavras e carinhos
Que ele seja mais que sentimento
Que encante pelo caminho.
Que seja abraço, olhares, sorrisos, em cada momento
Não deixe que o tempo roube a felicidade
De ter bem perto quem ama
Ame e seja pleno amor, entrega!
Deixe que tudo que a alma carrega;
Seja demonstrado e multiplicado.
Para ser sua historia, sua saudade.
sua vida, e eterna poesia."
Claudia Salles

sexta-feira, 25 de outubro de 2013


"Tenho mais silêncios do que segredos. Sou apenas uma resposta atrasada de alguém, a canção inapropriada da madrugada, o livro mais demorado de alguma estante. Sobre mim apenas o distante, o toque que não alcança, a muralha que divide. Ontem eu fui uma menina que fui roubada de sonhos, uma mulher que amadureceu das precipitações sobrepostas. Nem sempre a vida é justa, nem sempre nos devolve as respostas e passamos sendo apenas interrogações. Não tenho conversas interessantes, antes sou um poço de irrelevantes poemas. Tracei um caminho, mas caminhei por um desvio, sempre a própria beira. Não ofereço nada, do pó que vim, morrerei voando em poeira. O que deixarei saber sobre mim é que de alguma forma tenha amado a vida ou alguém, sem detalhes além. Uma mulher não diz quem escolheu para amar. Ela vive um amor a dois, a sós." 
Cáh Morandi

quinta-feira, 24 de outubro de 2013



Hoje, precisava de algo teu.
De repousar a cabeça no teu colo e deixar descansar as ideias. De sentir o teu abraço e permitir que o corpo quebre. De fechar os olhos num beijo imenso e assim adormecer.
Hoje, precisava de algo teu.
De uma palavra. De um afago. De um olhar. De um simples sinal. Hoje, precisava de algo teu.
De ti. Inteiro. Por aqui.
In Gosto de ti, e então?

“Prefiro-me assim. Uns dias cacto, outros dias chuva. Pedra de sangue, umas vezes. E outras, pluma de anjo. Tudo em mim é um poema, meu amor. Tudo em mim, quero eu dizer, poderá ser um poema. Porque o azul tem sempre a cor que nós quisermos.”

Joaquim Pessoa

quarta-feira, 23 de outubro de 2013



Queria que me abraçasses e não mais me deixasses partir. Que me beijasses e os nossos lábios não mais se ausentassem. Queria mesmo o abraço do tamanho do Mundo! Daqueles tão fortes que quase se deixa de respirar! Dos que apertam e magoam de bom!
Um abraço que deixamos ao início da manhã mas que se sente todo um dia. Um abraço que protege. Que acalma. Que sossega. Que tudo cura. 
Hoje, ao acordar, queria um abraço. 

Dás-mo? 

In Gosto de ti, e então?

terça-feira, 22 de outubro de 2013


Continuas a fazer-me sorrir. Não consigo pensar em ti sem ser com um sorriso terno. Um sorriso calmo de saudade. Um sorriso que vem de dentro. Um sorriso que acalma a alma e entorpece a dor. Um sorriso que desarma. 
Gosto do meu sorriso contigo. E é tão fácil fazeres-me sorrir... 
E eu? Ainda te faço sorrir?

In Gosto de ti, e então?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Gosto de olhar para ti. Gosto de ver o brilho dos teus olhos. Gosto de ver a emoção que deles transborda quando falas daquilo que te interessa.
Gosto de te ouvir falar, seja apaixonadamente por aquilo que te motiva, seja indignado por aquilo que te irrita.
Gosto de sentir o odor do teu perfume quando de aproximas.
Gosto do teu toque, ainda que subtil. 

Gosto das pequenas coisas que temos. Gosto dos momentos que partilhamos. Gosto sempre. E muito.



In Gosto de ti, e então?

quarta-feira, 16 de outubro de 2013


Hoje apetece-me estar assim: calada. A ouvir o silêncio. A ouvir o nada.

Hoje apetece-me estar assim: quieta. Não me mover. Não interferir com o movimento da vida lá fora.
Hoje apetece-me estar assim: muda. Nada dizer. Nada mais dizer.
Silenciosa. Inerte. Muda. De olhos fechados.


In Gosto de ti, e então?

terça-feira, 15 de outubro de 2013


Nada dura para sempre.

Se tivesses um amigo que nunca mais fosses ver... o que dirias? Se pudesses fazer uma última coisa por alguém que amas... o que seria? Diz. Faz. Não esperes. Nada dura para sempre.
Faz um pedido e guarda no teu coração. Qualquer coisa que quiseres. Tudo o que quiseres. Já o tens? Óptimo. Agora acredita que se pode tornar realidade. Nunca sabes de onde virá o próximo milagre. A próxima memória. O próximo sorriso. O próximo desejo que se tornará realidade. Mas se acreditares que está logo ali adiante, ao virar da esquina, e abrires o teu coração e a tua mente para essa possibilidade, para essa certeza, pode ser que consigas o que tanto querias. 
O mundo está cheio de magia. É só acreditar nela. 
Então pede um desejo. Já está!? Óptimo. Agora acredita nele. Com todo o teu coração.


João Monge Ferreira

"E eu com essa mania
de ser grande
de ser forte
de ser poeta...
Essa maneira grande
de manias e manhãs
de fazer da poesia
minha força
e dessa força
meus amanhãs..."

Lucas Veiga
 



Às vezes é preciso mudar...

Às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar nem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar.
Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer. 
Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução!


João Monge Ferreira

"Se é pra sofrer, que seja sozinho, 
onde seu rosto possa estampar desalento, 
inchaços, nariz vermelho, olhar perdido, boca crispada. 
Se é pra sofrer, 
que o corpo possa verter, vergar, amolecer. 
Se é pra sofrer, 
que possa ser descabelado, que possa ser de pés descalços, que possa ser em silêncio.
Assim como protegemos nossa felicidade, temos também que proteger nossa infelicidade.
Não há nada mais desgastante do que uma alegria forçada. 
Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco. 
Disfarçar a dor é dor ainda maior."
Martha Medeiros


Da minha vida à tua um tempo se renova, 
um salmo se repete, 
uma claridade alastra, 
o corpo se suspende. 
E o sofrimento se deslumbra.
Da minha vida à tua o relâmpago, 
a ave, a seda, as sombras da floresta, 
se encontram, se perdem, se revesam. 
E os segredos permanecem.
Da minha vida à tua uma só raiz se adensa, 
o pólen nos pertence, 
o sol nos surpreende. 
Os medos se dissolvem.
E os mais pequenos nadas se engrandecem.


Joaquim Pessoa


Bom dia, hoje, faltas-me tu. 
Dias em que o sorriso é travado pela ausência. 
Dias em que a felicidade é parada pelo silêncio.
Dias em que a vida não pode ser só isto.
Dias.

In Gosto de ti, e então?
Meu coração está aberto a todas as formas:
É uma pastagem para as gazelas,
E um claustro para os monges cristãos,
Um templo para os ídolos,
A Caaba do peregrino,
As Tábuas da Torá,
E o livro do Corão.

Professo a religião do amor,
E qualquer direção que avancem Seus camelos;
A religião do Amor
Será minha religião e minha fé.

Ibin Arabi 

"Eu gosto de abraçar. Abraços são calmos, serenos ou podem ser fortes, esmagantes. Abraços transmitem segurança. Abraçar me faz rir, chorar. Abraços me emitem sentimentos. E são esses sentimentos que me tornam frágeis. Abraços exalam amor. Abraços transportam para outra dimensão. Abraçar é ceder. Ceder àquilo que pesa. Abraçar é sentir-se mais leve. Abraços são suportes. E é por meio destes que eu viajo para longe. É por meio dos abraços que por segundos consigo ter paz; consigo ser paz. Abraçar é acalentar, é aconchegar. Então, aconchegue-se e inale um pouco de ternura. Ternura que vem de dentro. Ternura que estima, que chama, que flama. Abrace."
Sou um ser feito de barro, apenas

segunda-feira, 14 de outubro de 2013


"Tenho um instinto só meu.
Gosto de viver assim, sem limites, fazendo a vida se moldar em mim.
Brinco com o tempo, contrariando sua exactidão.
Nada pode ser sério demais.
Sigo os ponteiros do meu coração.
Sou de um jeito exagerado, sou o espanto por não ter na fala a pausa precisa.
Sou borboleta arisca, que arrisca, a espera da flor mais bela.
Sou a cada minuto, a sugestão de um momento.
Sou sentimento, apego, carinho, a falta.
Por quanto tempo eu viver, seguirei achando que ainda não amei o suficiente.
Sou só eu mesma a todo instante."

Patty Vicensotti
Somos bagagem. Somos feitos de coisas que trazemos da vida. Carregamos connosco todas as alegrias e desventuras que já conhecemos. Todas as lágrimas choradas e todos os risos sinceros. Todos os tombos que demos e as nódoas negras que os recordam. Todas as vitórias conseguidas e o suor que as fez alcançar.
Todos somos bagagem. Pedaços de coisas que conquistámos. Fragmentos de experiências. Peças de um todo, que sozinhas não fazem sentido.
Todos trazemos bagagem. Malas cheias de sonhos. Caixas com sorrisos. Pacotes de tristezas. Sacos com saudades. Caixotes com conquistas. 
Todos temos bagagem. Emocional. Material. Sensorial. 
Somos bagagem. E precisamos de que o outro esteja disponível para nos ajudar a desempacotar caixotes. Mas, antes disso, precisamos de estar disponíveis para aceitar a bagagem do outro.
Somos bagagem. Eu e tu. E, a tua bagagem, é como se minha fosse. Basta entrares e pousares as malas. E recostares-te.



In Gosto de ti, e então?

domingo, 13 de outubro de 2013

"Hoje acordei a precisar de rumar ao mar. Preciso da calma que me transmite. Da paz que necessito. De lavar a mente e reorganizar ideias.
Hoje, preciso do mar por perto. De sentar e olhar. De ficar e cheirar a maresia. Hipnotizar-me pelas ondas no seu vai-vem cadenciado. 
Hoje, quero o mar. Olhar. Cheirar. Meditar."


In Gosto de ti, e então?

sábado, 12 de outubro de 2013


"Tem vezes que bate uma tristeza na gente, uma vontade de chorar e de sumir... Quando isso acontecer, não se assuste nem lute contra o que está sentindo. Mas também não dê forças a esse sentimento, de forma a que ele o domine. Trate-o com o respeito que ele merece. Tristeza nem sempre é sinal de infelicidade. Pode ser passageira, pontual, focada em um problema, um assunto, um momento ou alguém. Permita-se apenas sentir. Somente assim você poderá gastar essa tristeza, principalmente pelas lágrimas. Chorar é sempre bom e dá um alívio danado no coração. Depois de bem gasta, sua tristeza se transformará em serenidade, depois em compreensão, até que, finalmente, será apenas mais uma lembrança no seu passado."


 Mônica de Castro

Tenho um jeito meio estranho de lidar comigo. Nem sempre me aceito, nem sempre me entendo, nem sempre me dou a mão. E como é essencial a gente se dar a mão, meu Deus! Olhar para dentro pode ser desesperador e doído. A gente carrega muitas coisas no peito, nas costas, na memória. E é preciso tentar viver bem com passado, presente e futuro batidos e misturados dentro da coqueteleira interna. Não é tarefa fácil, não. Requer esforço e uma capacidade bonita de perdoar.
Clarissa Corrêa


Às vezes é preciso dormir, 
dormir muito.
Não pra fugir, mas para descansar 
a alma dos sentimentos.
Quem nasceu com a sensibilidade
exacerbada sabe quão difícil é
engolir a vida.
Por que tudo, absolutamente tudo
devora a gente.
Inteira.

Marla de Queiroz


Não sei de que lugar vem esse vazio estranho,
e que por vezes contamina a minha alma...
Uma sensação de ser uma pessoa sozinha,
que pesa,
incomoda,
dói...
Um sentimento estranho de tentar ser tanto
e não ser nada...
De tentar alcançar tudo
e ter braços curtos...
De amar tanto,
e não ser lembrada...

Carla Véras

Outono


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor 
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga 


O sonho de ti. O desejo de estar contigo. Aninhada em ti. Na segurança dos teus braços. De um beijo molhado. De um adormecer descansado.
Há quanto tempo não te digo que gosto de ti? Muito e sempre?
Dorme bem, meu amor. Hoje, apagas tu a luz.
In Gosto de ti, e então?

quinta-feira, 10 de outubro de 2013


"Convivência entre o poeta e o leitor,
só no silêncio da leitura a sós.
A sós, os dois. 
Isto é, livro e leitor. 
Este não quer saber de terceiros,
não quer que interpretem, que cantem,
que dancem um poema.
O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio..."
Mário Quintana

Também se morre de silêncio

Morre-se de tanta coisa
Quanto a mim morro-me de ausência
morro-me com todo este céu a cair-me por entre os dedos;
pedacinhos de memória pendurados
morro-me também... da melancolia
quando tu, sem eu saber porquê,
nem te aproximas nem acenas
ah sim, também se morre de silêncio.

Victor Oliveira Mateus
Às vezes é preciso mudar...
Às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar nem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar.
Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer. 
Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução!


João Monge Ferreira

quarta-feira, 9 de outubro de 2013


Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo



MIA COUTO 
Hoje, é daquelas noites em que nada mais te tenho a dizer. Está tudo dito. Mais que dito. Sabes de cor o que eu penso. Já to disse inúmeras vezes, já to demonstrei, já to provei.

Hoje, é daquelas noites. Daquelas noites sozinhas. Daquelas noites em que fica o vazio do silêncio. Em que fica o vazio do nada. Aquelas noites em que a saudade não bate à porta e se instala sem pedir autorização. 
Hoje, é uma daquelas noites. 
Há noites assim


In Gosto de ti, e então?
“Hoje estou melancólica e suspirosa,
choveu muito, a água invadiu este porão
de lembranças, bóiam na enxurrada a
caminho do rio. Deixo que naveguem,
pois não as perderei.
O rio é dentro de mim.”
Adélia Prado


"Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim."

Fernando Pessoa

" O dia deu em chuvoso. 
A manhã, contudo, esteve bastante azul. 
O dia deu em chuvoso. 
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? 
Não sei: já ao acordar estava triste. 
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante. 
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. 
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. 
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? 
Dêem-me o céu azul e o sol visível. 
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.(...)


Álvaro de Campos

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa